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Bicicleta

I
Minhas asas de pássaro,
De anjo,
São pedais

Da bicicleta nascem minhas asas
E um sonho a mais

Sonho que sou chuva mansa
Molhando vales e arrozais

Na bicicleta minhas asas são meus olhos
Sou folha ao vento
Flor ao relento
E molho!

Da bicicleta sei da alma dos poetas
E com ela, e só com ela...
Olho.

Tenho o olhar que vê além porque tem asas
Olhar que voa ligeiro
E lá do alto
Vê o mundo inteiro
Ficar menino.

Menino, como meu amor

Então o vento
Me pega no colo
E assobia...
Uma canção que nina
Do menino, a dor.

Sou Anjo de bicicleta
Meu berço é tudo!

Sou anjo de bicicleta
Pneu que gira
Rasgando a terra
Vermelha
Esfolando-a
Até fazê-la
Em carne viva.
Meu berço é Tudo! É viva Terra!

II
Da bicicleta
Solto os meus braços,
Meus raios
Meus ais
Minha vontade de ser longiquo...talvez nunca mais.

Sou da estrada o que é mais alto
Um pensamento que comunga e cresce
Até não ter tamanho
Até ter todos os tamanhos
Até ser Prece!

Da bicicleta
Elevo-me
Grito meu transe
Meu nome.
DEUS!!!!!!
Teu Nome é meu nome!
Minha oração primeira, canção de Bach
Jesus, Alegria dos homens

Sou Cristo menino
De braços abertos
Brincando no vento,
Desperto.

Bicicleta,
Metal brilhante
Cavalo alado, metálico
Meu trampolim

Lança meu corpo
Em céu aberto,
Me faz Serafim.

Bicicleta,
Sou livre em ti!

Cavalo alado, metálico
Solta meus freios
Meus braços
Livra de mim o cansaço,
Entrega-me as nuvens, enfim.

III
Da bicicleta vejo os versos dos poetas
Flores tão simples e raras
Que as cumprimento
E às cigarras.

À elas entrego meu tempo
Porque quero morrer
Com a música que ouço!
E a música que ouço é tudo
É berço que embala meu corpo
Explodo!
Minha pele? Dei às cigarras
Sou Anjo, e já não morro!

Vejo raparigas rosadas e divertidas
Como as roupas dos varais...
Coloridas
São ágeis, como o vento
Que toca suas roupas e as faz quase nuas
À correr dos temporais.

Vejo bois deitados na estrada
Mugido longo, mais nada.

Vejo Bem te vis
E tantos outros passarinhos
Que quero ser seus ninhos
Para tê-los em meus braços

Vejo jabutis
E pequenas cobras que atravessam o caminho
E as abraço,
E as embalo
Num berço feito de canção.

E eu quero mesmo é ser menino
Ciclista,
Jabuti,
Bem-te-vi
Coqueirinho
Chão!

Na bicicleta,
Não sou eu que sinto ou ouço.
Som tem cheiro
Gosto tem som
E tudo é o tempo inteiro
Feito de cheiro e de som.

Sou ciclista de bicicleta que voa
Nas asas dela sou outro ser, outra gente.
Perco meu medo
Despeço-me da dor.
Sou contente!
De tanto amor desfaleço...
Sou gente!

(Teresa Bendini)








Nunca Deixe De Me Beijar A Boca


“Nunca deixe de me beijar a boca,
Eu lhe peço, por favor, nunca deixe de me beijar a boca!
Pegue em meu pescoço e me beije a boca
Passe as mãos pelo meu cabelo e me beije a boca
Segure meu rosto, olhe nos meus olhos e me beije a boca
Sussurre em meu ouvido e me beije a boca
Por favor, te peço... “Nunca deixe de me beijar a boca”

(Cecilia Graça)







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